“Preto no Branco” ou “Como os Fãs de Lost Desistiram dos Mistérios após Cruzarem um Oceano para Decifrá-los”

Publicado: 18 de maio de 2010 em Lost
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O maior mistério de Lost sempre foi o formulado por Charlie ao final do episódio piloto: onde nós estamos? Antes mesmo deste vários outros já se listavam com facilidade no decorrer do episódio e, numa torrente sem fim, se descobriu que o diferencial dessa série era criar expectativas através da apresentação de novos mistérios enquanto se respondia um ou outro pelo caminho.

Ao longo de seis anos de produção Lost foi engolido pelo público que o assistia. Numa reação em cadeia os fãs da série se juntaram em comunidades da Internet para discutir os tais mistérios e buscar algumas teorias para eles. Claro que os produtores perceberam essa interação inédita e trataram de alimentar com um caldo mais substancioso; cada novo elemento vinha com elementos distintos da própria história, pois se passou a referenciar coisas como filosofia, literatura, física, biologia, História (esta com h maiúsculo), entre outras.

É certo que a massa de fãs se aculturou de maneira que nunca pensou ou desejou. Mesmo que impulsionados apenas por um show que visa entreter, o conhecimento foi disseminado em todos, aos que já possuíam alguma bagagem ou não. Acontece que em qualquer série um fã devaneia um destino para aquilo que acompanha, personagens ou tramas, em Lost isso foi multiplicado. Antigamente poderíamos simplificar como uma satisfação bem pessoal, mas em Lost não, há um embasamento que canaliza as soluções dos mistérios para algo de concordância coletiva.

Aqui é hora de abrirmos um parêntese para se perguntar em que reino essa fantasia evolui. É certo que toda a primeira temporada de Lost flertou muito com elementos sobrenaturais, como a aparição de fantasmas, curas milagrosas e sussurros do “além” de meter medo. Misticismo religioso também foi foco através de curandeiros picaretas e até um toque de um certo Adão e Eva só deles.

Uma parcela de fã que se sentia um pouco incomodada com essas coisas de fé foi agraciada com uma segunda temporada fincada na emblemática Iniciativa Dharma, ferramenta que parecia ser a firme base para uma futura resposta concreta do que é Lost. Aconteceu que ela era apenas um pilar de uma sustentação tríade da série, pois na terceira temporada se destacou os chamados Outros e evidenciou algo que sempre existiu na dramaturgia, o lado humano, e que ninguém é bom ou mal, mas uma mistura disso.

Três anos se passaram e centenas de mistérios se acumularam e uma cisão nos fãs passou a ficar clara, a dos que viam a série cambalear em sua narrativa e dos que confiavam na promessa da premissa inicial. E enquanto ninguém conseguia encontrar a solução para o mistério mor, mesmo tendo um personagem poderoso como Desmond a disposição, via-se com desconfiança que um dia os Losties conseguiriam sair da ilha. Eis que a série mostrou uma de suas maiores características de maneira ímpar, as reviravoltas ousadas e surpreendentes: no caso, os sobreviventes do vôo 815 já saíram de lá e precisam voltar.

Esse baque pôs em evidência um fato que muito tendem em não absorver: muitos dos mistérios têm uma solução ou um desenvolvimento para a conclusão muito mais simples que a maioria estipula. Ou seja, tantos debates sobre como conseguir se resgatar e, no entanto, o que se pretendia contar era a necessidade de ficar na ilha.

Os mais céticos, justamente (ou ironicamente) os que mais fantasiaram em teorias, são os que mais sofreram com os movimentos contrários, provocando uma sensação de estarem sendo enganados pelos produtores e roteiristas da série. Isso não procede em nenhuma história que se vende como misteriosa e que necessita ser decifrada aos poucos, mesmo que elementos chaves sejam dados nos últimos instantes.

Nessa proposta os autores têm a obrigação de não venderem as respostas antes do tempo, portanto são obrigados a camuflar pistas chaves ou construir variações delas que são apenas identificáveis quando comparadas em momento posterior. Lost fez e faz isso a todo instante. Num trocadilho rasgado os espectadores precisam ficar perdidos e apenas enxergar as conexões na visão total da obra concluída.

Tendo em conta essas necessidades narrativas não há porque após o episodio Across the Sea, o 6×15, os fãs tanto do Brasil quanto do restante do mundo terem uma aversão exagerada. A gritaria é tamanha que reduzem o valor da série em função das respostas finais tidas como fracas, deixando de lado a jornada, ou seja, não se importam como a trama conduziu as soluções (através de comparações ou novos elementos) até aqui.

Se um episódio focado em dois personagens importantes para a mitologia é taxado de o pior de todos dá a entender que esses fãs radicais não estão interessados na história que Damon Lindelof e Carlton Cuse estão desenvolvendo durante anos, mas tão somente nas respostas. Notem, não as respostas dos produtores, mas aquelas que a massa julga ideal ou coerente para o que deduziram entre os mistérios.

Parece que estão privando os autores de contarem a história que querem contar. Por mais que os fãs se envolvam, captem as referências e as traduzam, nada lhes pertencem. O final, seja ele qual for, somente fará sentido se for tradução da idéia principal que norteou todas as temporadas e episódios, coisa essa que ainda é segredo.

Fãs de Fé e Fãs de Ciência. Quem apreciou o lado sobrenatural desde o princípio não viu erros irreparáveis no episódio em questão, muito pelo contrário, pois sabe que é apenas uma vertente, como ali mesmo foi dada a outra, das questões humanas, num episódio solo de dois irmãos e sua mãe. Os Fãs de Ciência enxergaram apenas um desastre porque não conseguiram se apoiar em nada já que tendem a aceitar com prazer tão somente o que tem embasamento científico e com explicações literais.

O que incompreensível é que essa detratora massa de fãs é a que se interessou por Lost por promover o pensamento racional e não emocional. Deixaram-se levar de maneira tão ingênua, traindo até seus encadeamentos lógicos, que se esqueceram que o menos importa nessa ilha são as respostas, mas as perguntas. Assim como o pecado original cometido por Adão e Eva: se questionaram sobre o que era o paraíso e reinvidicaram o livre-arbítrio.

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