LOST – Uma Visão Escura da Série

Publicado: 27 de maio de 2010 em Lost
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Para aceitar certos finais de séries é preciso fechar os olhos para a narrativa e não contar com a presença de detalhes que cada espectador ou fã gostaria de ver. Acontece que em Lost quem fechou os olhos foram os próprios produtores ao negarem quatro temporadas, exatamente entre a primeira e esta última.

Aqui no Netiteve já defendemos o direito dos autores de Lost contarem a história que eles querem contar, afinal quem a assiste, embora alimente sua existência, não determina nada, pelo menos de maneira direita, é claro. Damon Lindelof e Carlton Cuse insistiram no argumento que a história verdadeira de Lost é sobre pessoas e por isso criaram um final tão radical nessa defesa que sacrificou tudo o que era tão válido quanto os personagens.

E o que havia de tão bom além dos sobreviventes do vôo 815? Os infindáveis mistérios são elementos cristalinos, que mesmo para quem não os perceba ou não os entenda eles interferem na vida dos personagens. Portanto, dizer que a série é sobre pessoas e que a necessidade de resolver as situações misteriosas não importam é cometer um erro grave.

Se o importante é destacar a jornada dos sobreviventes durante seis temporadas para então fechar a série com a afirmação que o importante é o que eles viveram juntos é óbvio que o veículo que utilizaram, tantos os personagens quanto os roteiristas, é vital, assim como o espaço percorrido, e no caso de Lost, somasse ao espaço o tempo percorrido também. E o que fez a series finale? Deixou de lado, respectivamente, os mistérios e a ilha.

Voltando ao princípio de tudo, ainda na gestação da série, temos que a idéia inicial onde náufragos sobreviveriam numa ilha foi considera fraca por não ter força dramática que sustentasse uma série longa. Quando J.J. Abrams entrou na produção ele imediatamente incorporou ao enredo que a tal ilha era singular, o que serviria de ferramenta para incorporar situações além da imaginação e então ter meios de produzir expectativas para várias temporadas.

A gritaria de muitos fãs para com a maneira como Lost terminou é resultado da ira de centenas de mistérios não terem sido resolvidos. Na verdade muitas narrativas terminam de forma aberta e longe de se traduzir. Os produtores decidiram da mesma forma omitir resoluções; mesmo porque nunca daria para saber o que a audiência considerasse vital saber, e, de novo, eles são os donos do show e revelam apenas o que querem e ponto.

A dupla Darlton sempre teve o argumento base que os mistérios não deveriam ganhar força porque as histórias dos sobreviventes é que deveriam estar acima de tudo. De fato, Lost adotou a estrutura de monstro-da-semana para a sua narrativa justamente por isso, ou seja, a cada novo episódio algum dos personagens teria um destaque e tudo giraria em torno dele. Objetivos à parte, é claro que mistérios surgiam em torno do destacado personagem e outros enigmas corriam à margem se juntando a uma mitologia crescente.

A mitologia de Lost é a própria ilha. Também é o mal de Lost. Por quê? Bem, a mitologia engoliu os personagens, fazendo que a audiência enxergasse primeiro ela e depois as pessoas. Aliás, J. J. Abrams, quando ainda estava no comando do show, repetiu várias vezes que é a ilha é o protagonista da série.

Por ironia, o roteiro dos episódios (em sua grande maioria) não soube sustentar dramaticamente a história dos personagens mas dava ao mesmo tempo à mitologia mais e mais vitalidade. È de se lamentar muito isso, pois o season premiere de Lost é um dos melhores pilotos já produzidos para uma série de tv porque soube encaixar uma história ainda breve, mais intricada e misteriosa, em conjunto com um elenco perfeito de personagens. E na seqüência dos episódios seguintes a força dos personagens ainda era evidente com roteiros enxutos e competentes.

A fragilidade de Lost começou a se formar em pleno auge da série, sua primeira temporada. O motivo: sua forma de ser. Embora os Flashback fossem um excelente engenho narrativo para desenvolver os personagens eles se mostraram vazios ou, pior, redundantes quando um mesmo lostie ganhava outro episódio solo. Ficava nítido que não havia sido planejado conteúdo fora da ilha para eles, sendo sempre bolados para justificar alguma linha de conduta lá naquele estranho lugar. De maneira geral podemos dizer que alguma redenção ocorria do vivido fora da ilha para o contexto dentro dela.

Completando esses passos em falso os elementos que funcionavam na ilha eram aqueles onde os personagens acabavam por valorizar ainda mais a mitologia, em detrimento de sua jornada pessoal. Isso fez com que antes do fim da primeira temporada os fãs já venerassem alguns personagens e detestassem outros. E quando essa balança por surpresa oscilava era de novo para as questões dos mitos.

Kate e Sun & Jin notadamente eram os que mais sofriam com flashbacks vazios e sem vigor. É justo lembrar que eram excelentes personagens nos episódios de abertura, muito por conta de sua capa de mistério inicial e, depois que desvendados, nunca mais receberam material adicional que os reinventassem, pois foram vistos em todo seu conteúdo na primeira visita.

Outros personagens tiveram mais sorte com seus flashbacks, que às vezes davam a impressão de uma vivência diferenciada para eles, mesmo que isso não fosse verdade após uma análise mais fria, como Jack, por exemplo. E claro, Desmond foi o que recebeu flashes fantásticos que por si só já jogavam Lost inteiro para outros patamares e reescrevia a até então mitologia conhecida.

Os flashes, de maneira geral, passaram a ser algo a ser suportado pela maioria dos fãs. Espectadores casuais ou não iniciados na mitologia eram os únicos a apreciar a vida pregressa dos losties, claro que não porque apoiavam os Darlton, mas por ignorar que havia algo complexo em volta. Com o advento dos FlashForward (uma ótima reviravolta) deu-se a impressão que as histórias fora da ilha teriam maior substância, mas na verdade se mostrou até mais rasa do que antes.

A baixa qualidade das histórias é o ápice de outra ironia de Lost. A quarta temporada começou com a promessa que tudo já estava escalonado para o limite então estabelecido de apenas seis temporadas. Numa visão global realmente se percebe que havia se estipulado muito bem como acabaria e terminaria cada temporada e qual o caminho seguido por cada um dos personagens. Acontece que também fica evidente que nunca houve um planejamento de que maneira esses pontos se ligariam com eficiência narrativa, do encadeamento do que acontecia até as ações dos losties.

Todas os novos arcos e novos personagens apresentados foram mal desenvolvidos ficando os personagens protagonistas sempre num vácuo até que os pontos de conexão antes estabelecidos se encontrassem. E enquanto tudo isso acontecia novos mistérios apareceram para fomentar a já inchada mitologia.

Apesar de tantos erros gritantes Lost nunca perdeu o ar de inovação e ousadia. Tanto que a maioria dos fãs que renegaram a série pelo caminho quase sempre o fizeram pela mesma alegação que mistérios não eram resolvidos. Ou seja, os descontentes foram embora insatisfeitos com a obsessão que eles mesmos plantaram neles em centenas de teorias que formularam para tentar adivinhar o que se passava nessa bendita ilha.

Quem permaneceu fiel à série foram os teimosos que tinham esperanças em explicações definitivas mesmo que tardias ou aqueles que consideravam que Lost tinha mais qualidades que defeitos e ainda consideravam uma boa história para se acompanhar.

Ok, falando francamente, o que manteve algum espectador até o fim foram mesmo os personagens e suas vidas, mas não por mérito dos produtores, pois esse é o agregador de qualquer espécie de história, não importando o veículo, seja tv ou cinema, literatura ou teatro. Quando aqueles que as assistem não se identificam com os personagens não há história por trás que os impeçam de ir embora, e quando não o fazem é como acompanhar o caminhar de um corpo sem alma.

Lost começou com uma bela abertura fantástica sobre pessoas bem reais imersas num mundo fantasioso. Quando os roteiros começaram a maltratar os personagens primeiro nos Flashes e depois na vida da ilha, quem não tinha como se agarrar aos mistérios foram embora. Lost é uma série de mistérios. Foi isso que a fez vingar ao se afastar do nati-morto formato inicial já comentado aqui.

A série está sem alma há tempos. Todos os personagens foram sucateados, dos losties, aos outros, aos dharmas, aos vilões e até a Jacob e seu irmão não nominado. O corpo ainda existe, mas está doente, pois os mistérios se tornaram desconexos, contraditórios e nulos.

Quando os Darlton anunciaram que nesta sexta temporada retornariam ao clima da primeira tudo pareceu bem vindo, só que não avisaram (embora admitiram depois numa entrevista bem honesta) que iriam esclarecer ao final apenas sobre a nova realidade paralela. E assistindo ao mais longo episódio já feito eles cumpriram o aviso e negaram tudo o que era científico em favor de uma abordagem espírita. Essas duas maneiras de enxergar o mundo sempre conviveram pacificamente em Lost, mesmo que alguns fãs não gostassem. Porém, o lado sobrenatural não veio para dar sua versão, mas sim para esquecermos que tudo o que não foi respondido, pois simplesmente não interessa.

Se a proposta era nunca dar importância as respostas porque tanto se fez gerar perguntas na mente dos espectadores? Se a intenção era valorizar apenas como o convívio entre esses perdidos amigos era tudo que importava para eles e para a série porque os roteiros sempre foram incompetentes nesse ponto?

Outra constatação terrível sobre a series finale é que ela funciona em qualquer outro show de tão genérica que ela se mostrou nos seus fins. Troque Jack Shephard por Jack Bauer e uma grande amiga de jornada como Chloe O’Brien dizendo que há anos espera por ele e teríamos que aceitar que o que importou foram os anos que passaram juntos e ambos (e quem mais for possível associar nessa linha) estão prontos para lembrar, esquecer e seguir em frente.

É frustrante ver que em meio a tanta luz que essa abordagem espírita oferece está o evento mais escuro de Lost. Não porque nos faz esquecer os mistérios e suas possíveis soluções, mas porque nos priva da jornada por se concentrar em momentos chaves (como todos os déjà vu frisaram), momentos bons somente, limando os ruins, afinal, quem pretende se purificar para a luz não irá carregar qualquer carma de alguma tragédia ou cenas constrangedoras onde os personagens foram colocados ao longo de várias temporadas desconexas; ainda que no todo Lost seja uma grande série.

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comentários
  1. Diogo Pitta disse:

    Discordo de quase tudo,

    a 1 temporada foi a que teve mais audiência e foi a temporada onde tinha poucos mistérios. Era totalmente focada na vida dos sobreviventes, eles descobriram a Escotilha nos últimos minutos da primeira temporada. Você critica flashbacks, que para mim eram muito bem feitos, nunca uma série soube explorar TÃO BEM OS FLASHBACKS. Se você fala que os FLASHS de Lost são ruins os da outras séries são uns lixos.

    ”A baixa qualidade das histórias é o ápice de outra ironia de Lost. A quarta temporada começou com a promessa que tudo já estava escalonado para o limite então estabelecido de apenas seis temporadas. Numa visão global realmente se percebe que havia se estipulado muito bem como acabaria e terminaria cada temporada e qual o caminho seguido por cada um dos personagens. Acontece que também fica evidente que nunca houve um planejamento de que maneira esses pontos se ligariam com eficiência narrativa, do encadeamento do que acontecia até as ações dos losties.” Bem pra mim não foi bem assim, a linha de tempo de Lost, ficou meio tosca. Mas se você assistir novamente cara verá muita ligação.

  2. netiteve disse:

    Diogo,

    A grande sacada de Lost é ter feito os flashbacks uma maneira de compararmos os personagens em situações diferentes mas sofrendo das mesmas questões morais, enquanto que em outras séries é apenas o contar daquelas histórias, seja para esclarecer as tramas ou as embaralhar. Estruturalmente não tem pra ninguém, Lost arrasa. Acontece que virou um erro quando ficou evidente que eles estavam se repetindo e não apresentando uma evolução para muitos personagens. Só pra lembrar uma das maluquices tem aquele onde a Kate se casa com um policial, uma viagem que foi esquecida por completo.

    As ligações que me referi não são os pulos no tempo. Dou um exemplo de como eles não sabiam o que fazer entre dois ou mais pontos. Sun sai da ilha pensando que Jin morreu e culpa Ben. Desiste de uma vingança e reencontra seu marido para em seguida morrer junto com ele. Pontos bem interessantes, não? Agora o que ela fez entre eles? Nada. Foi um dos personagens mais postos de lado e tendo função de figurante nas três últimas temporadas. Os roteiros poderiam ter feito muito mais com um personagem que era tão forte lá na primeira temporada: reprimida e ao mesmo modo ardilosa.

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